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31.5.08
Duas caras
Assisti a novela apenas em dois momentos, o início e o fim. Apesar dos exageros dramáticos, achei coerente a sacanagem do golpe do Ferraço no início, sua fuga, a donzela abandonada com o ódio que ia permear a estória. Anos depois, não convenceu a tranquilidade de Ferraço se despedindo para a cadeia e pedindo pra ela esperá-lo, o beijo apaixonado, o seu visual fashion black chegando na Penitenciária como quem vai à Daslu. Sem falar nessa ode à Portelinha e a Marília Gabriela brincando de ser ela mesma.
Sempre que revisito os posts antigos deste rabo a sensação é de estranhamento, lá se vão cinco anos de blog e o cara que escrevia aqui definitivamente é outro.
Ah, se eu pudesse ter a experiência de ler o blog de meus pais e antepassados, sondar seus pensamentos da juventude e elaborar idéias sobre os seus silêncios, sobre o que não era escrito. Mais sorte terão meus filhos: mesmo que eu desista deste canto um dia, eles poderão garimpar essas informações nos arquivos da Internet.
É evidente que há cinco anos eu tinha bem mais tempo livre, chegando a blogar seis ou sete vezes por dia e pela leveza dos textos dá pra perceber que toda a coisa fluía com bem menos freio no teclado. O descompromisso dessa época me aproximou da maioria dos meus amigos mais próximos de hoje e rendeu ótimas estórias. Entre algumas maluquices, do silêncio de minha estação de trabalho já ajudei a movimentar o maior flashmob de Brasília e a força do nosso anonimato acabou virando assunto (e ira) da coluna diária do Arnaldo Jabor.
É uma época que traz saudade.
Com tempo de sobra, lia-se coisa boa com mais frequência, escrevia-se descompromissado com a audiência e com o mainstream, tudo bem mais experimental. Surfar, de link em link, era como visitar uma feirinha repleta das idéias de amigos queridos ou de desconhecidos, coisa que jamais se encontraria no mundo real com tanta facilidade e rapidez. Passado este boom do início, muitos blogs ficaram pelo caminho, outros estão de molho até hoje e alguns resistiram, em outro ritmo e com novos ideais. Ficou pra trás também essa inocência, esse toque mais artesanal da blogosfera, o que é uma pena.
[...]
Acho que o grande barato dos blogs é a opinião, que não passa de um rastro da essência do blogueiro. Leio o fulano porque seu olhar crítico tem raízes na minha estória e suas opiniões acabam sendo mais ou menos familiares, mesmo que sejam opostas. Mergulho nas intimidades sexuais da sicrana porque conheço sua proposta sincera de vida e seus valores. Aquele tempo que passo por ali é como ouvi-la contar o seu dia enquanto termino de lavar a louça.
Melhor ainda poder ler o cotidiano dos amigos que moram longe: mirradas informações banais já dão um colo pra saudade, renovam nosso dia de forma rápida e certeira.
Gosto também da sinuosa fronteira entre o virtual e o real.
De tanto ler seu posts diários, já sonhei algumas vezes com uma de minhas queridas blogueiras distantes e o roteiro era sempre algo do cotidiano, como uma ida à feira ou um bate-papo no shopping sobre banalidades. Horas depois, eu acordava perplexo com essa aura de familiaridade, como se eu realmente tivesse experimentado aquilo tudo. A coisa marcou tanto que sempre que caminho por São Paulo, sigo alerta para encontrá-la por acaso, ensaiando algumas palavras, mas jamais a vi.
Em outra oportunidade, foi tudo bem mais real: passei a tarde batendo papo na sala de uma das blogueiras mais conhecidas da blogosfera tupiniquim, um referencial de cultura e sensibilidade, no pedestal de minhas favoritas. Não esqueço a sensação de me ver ali, cercado de livros e gatos passando por baixo de minhas pernas, naquela mesma chaise lounge onde já haviam sentado Bethânia, Olyvia Byington, Caymmi e Millôr. Em meio à minha perplexidade e às prateleiras intermináveis de livros estavam fotos de Tom Jobim, Vinícius de Moraes e outros amigos íntimos. Da janela eu via o Corcovado e o Redentor, que lindo.
Lembrei disso tudo depois de saber que a querida Anne, do Belos e Malvados voltou a blogar. A Anne faz parte da época da inocência na Internet e tem essa simplicidade no texto que me desarma. Nunca a conheci, mas sabe-se lá até quando.
Agora vou bater perna à caça de fotos e estórias, há sempre algo novo a se descobrir em Brasília.
Se eu pudesse resumir a reação ao fim de uma bela existência de forma sucinta, a frase escolhida seria "O que?!". Certamente esta pequena e poderosa combinação de palavras, carregada de descrença e espanto, ecoou na manhã de todos nós, ao ouvir a notícia da morte do Senador Jefferson Peres.
O assombro é tamanho que chegamos ao requinte de desautorizarmos o senador a morrer. Por trás deste choque, um grande sentimento de desamparo. Com o desaparecimento deste pequeno pilar da ética, o Senado parece prestes a ruir, como um castelo de cartas.
Jefferson nos deixa desamparados de sua política e é justamente essa necessidade da boa política que nos atormenta. Este vazio deixado pelo seu desaparecimento nos faz lembrar que a política, como proposta, não é ruim.
A atuação dos maus políticos é que desvirtuou tudo, transformando a Casa do Povo em ratoeira.
A ironia é que estes mesmos ratos passarão os próximos dias encenando seu discurso estéril em TV aberta, louvando de forma hipócrita um exemplo tão antagônico às suas práticas.
[...]
Em breve será devolvido à Terra não apenas um pequeno grande homem, mas um ideal que também era nosso e que perde cada vez mais força.
Diante da repercussão nacional, a morte de Jefferson acaba parecendo uma metáfora de sua própria atuação política: discreta, sutil e poderosa.
Dia fodaço de bom com os caras do Discovery Channel Canada. Depois de dois meses de intensas negociações, seremos um dos assuntos do especial de Ciência e Tecnologia sobre o Brasil, a ser veiculado tipo assim no mundo todo, a partir de outubro.
Depois deste dia intenso de filmagens, as noites mal dormidas viram fichinha quando imagino a dimensão da visibilidade global que alcançaremos. Tô feliz pra caralho de ter grande parcela de culpa nessa estória.
Sabe aqueles marmanjos escovando bits até altas horas da madrugada na piscina?
Oquêi, a gente bem que se divertiu, mas também produziu umas gracinhas trabalhosas, como o vídeo abaixo...